Traduções

Tradução é uma actividade que abrange a interpretação do significado de um texto numa língua — o texto fonte — e a produção de um novo texto numa outra língua, mas que exprima o texto original da forma mais exacta possível na língua destino; O texto resultante também se chama tradução.
Quem desconhece o processo de tradução quase sempre trata o tradutor como mero conhecedor de dois ou mais idiomas. Traduzir vai além disso. Há um famoso jogo de palavras em italiano que diz “Traduttore, Traditore” (em português, “Tradutor, traidor”), pois todo o tradutor teria de trair o texto original para conseguir reescrevê-lo na língua desejada.
Em primeiro lugar, a tradução envolve dois idiomas, mas não pára aí. As áreas ou tipos de textos traduzidos são muitos, e por isso um bom tradutor de romances não é obrigatoriamente um bom tradutor de textos científicos, e vice-versa.
Tradicionalmente, a tradução sempre foi uma actividade humana, embora haja tentativas de se automatizar e informatizar a tradução de textos em língua natural — tradução automática — ou usar computadores em auxílio à tradução (Tradutores on-line).
A tradução pode ser entendida como o acto de mapear um texto, transportando-o de um domínio para outro.
Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, os tradutores não são apenas tradutores de livros. A tradução de livros ou editorial, erroneamente chamada “tradução literária”, é um segmento minoritário do mercado de tradução em todo o mundo. Outros segmentos mais volumosos são os de tradutores jurídicos (entre eles os tradutores juramentados), os tradutores de manuais de equipamentos industriais, os tradutores de artigos jornalísticos, os tradutores de textos de medicina, entre outros.
Deve ser possível ler, entender e manter ideias entre as duas línguas e, em seguida, produzir traduções fiéis, completas e sem exclusões, de uma maneira que transmita o significado original de forma eficaz.



O QUE TRAI O TRADUTOR?


Tradutore traditore

Há um misto de admiração e ódio pelos tradutores. Isso, é claro, quando eles são de todo percebidos nos meandros dos livros que abnegadamente trazem para sua língua materna.
O trabalho de tradução é sempre falho e incompleto, pois essa é a natureza do processo de traduzir. Não há entre os idiomas -
 por mais que os tradutores automáticos tentem burlar isso - uma correspondência biunívoca entre vocábulos e estruturas; há aproximações, possibilidades, escolhas. Traduzir é, antes de tudo, escolher.
Não é simples a tarefa do tradutor. Há que respeitar o tom correto do texto original, as intenções do autor, a precisão vocabular possível. Mais ainda sofrem os corajosos que se dedicam a traduzir literatura e enfrentar o desafio de ler o que há por trás das escolhas do autor, as intenções ocultas, e reconstruí-las usando a língua dos leitores que, muitas vezes, jamais terão acesso aos originais daquela obra. E as palavras carregam forças ocultas, pesos aparentemente imperceptíveis mas que trabalham nos subterrâneos da compreensão do leitor, reforçando o caráter das propostas do autor original.
Os que traduzem poesia são quase-heróis.
Escrevo não como tradutor apenas, mas como leitor que ora se aventura pelo mundo espinhoso das traduções. Muitas vezes, em minhas tantas leituras de textos estrangeiros, passaram-me despercebidas essas reflexões que vi despertadas não só em meus recentes trabalhos mas, sobretudo, ao buscar no excelente Quase a Mesma Coisa, do escritor e tradutor italiano Umberto Eco, algumas respostas aos dilemas que enfrentei em minhas escolhas diárias no desafio da tradução. Como leitores, somos por vezes críticos muito ácidos do trabalho de tradução, já que mesmo sem conhecer a língua original de uma obra, é possível detectar problemas de tradução. E esquecemos que o bom tradutor jamais traduz apenas de uma língua para a outra -
 antes, trata-se de um processo de tradução de uma cultura para a outra, de uma época para a outra, de um público para outro. Por isso, os bons tradutores são muitas vezes os mais humildes e, ao mesmo tempo, os mais críticos em relação ao seu próprio trabalho - pois sabem que é praticamente impossível recriar em sua língua materna as sutilezas que qualquer língua estrangeira, como construtora de um outro mundo de falantes, sempre carrega.
Sei, mais que nunca, que todo tradutor é um traidor. Mas, sem esses traidores, que seria de nós, leitores, e nossas naturais limitações para ler na língua original todas as obras interessantes que há nas prateleiras mundo afora?
(Robertson Frizero)


QUIÇÁ O PRIMEIRO TRADUTOR DA HISTÓRIA
S. JERÓNIMO TRADUZINDO A BÍBLIA


"Para ser tradutor, imagino que seja preciso acreditar que o conhecimento das culturas do país de origem e do nosso são fundamentais. A tradução é uma ponte entre duas culturas"

Lia Wyler


"São os autores que fazem as literaturas nacionais, mas são os tradutores que fazem a literatura mundial"

José Saramago


"Uma Tradução, por mais que deixe a desejar, é e sempre será uma das actividades mais importantes e dignas de relacionamentos dos povos"

Wolfgang Goethe


"A tradução não é apenas uma questão de palavras: é uma questão de transformar toda uma cultura em inteligível"

Anthony Burgess

A máquina do tempo: traduttore, traditore


Hoje, a nossa viagem vai fazer-se por uma região pouco conhecida e ainda menos valorizada do planeta da literatura – a tradução. Nesse mundo mágico da criação literária, onde acontecem prodígios como a «Eneida», o «D. Quixote de la Mancha», o «Hamlet» ou a «Guerra e Paz», movem-se, quase como invisíveis duendes, os tradutores que, «à force de reins et de sueur», como disse Gustave Flaubert, conseguiram que muitos milhares de milhões de leitores fossem ao longo das gerações conhecendo a Ilíada, Dante, Cervantes, Tolstoi, Kafka, o que não é proeza pequena, sobretudo se nos lembrarmos que é cometida por seres praticamente invisíveis.
Invisíveis, porque, tal como acontece com os árbitros de futebol, o melhor que pode acontecer a um tradutor é passar despercebido. Quanto melhor tiver feito o seu trabalho, menos consciência deverá o leitor ter da sua intervenção. A tradução ideal, portanto, assemelhar-se-ia a um vidro muito perfeito, transparente e limpo, através do qual se pudesse ler o original, mas na língua de chegada. Um vidro que não distorcesse as imagens. Que não se visse, a bem dizer.

Na maioria dos casos, a tradução empobrece o texto original. Há casos, porém, como na tradução que Blaise Cendrars fez de «A Selva», de Ferreira de Castro, ou a que Jorge Luis Borges fez de «The Wild Palms», de William Faulkner. Que são exemplos em que o vidro que se interpõe entre a língua de partida e a de chegada não está limpo nem sujo, mas sim esmerilado pelo estilo genial dos tradutores. No caso da tradução de «A Selva», com a sua ironia cáustica, Almada Negreiros, aludindo ao estilo rude e primário dos primeiros livros de Ferreira de Castro, dizia que o ideal teria sido pegar na tradução em francês, feita por Cendrars, arranjar um bom tradutor e verter então a obra para português.
Gabriel García Márquez foi ao ponto de declarar que a versão inglesa de «Cien años de soledad», feita por Gregory Rabassa, ultrapassa a sua obra em qualidade literária. Tradutor, traidor, como diz o famoso aforismo italiano: estaremos nestes casos, como o de Cendrars ou o de Rabassa, perante boas obras literárias, mas más traduções, ou apenas em face de excelentes traições?
O catalão Joaquim Mallafré coloca o problema da tradução através de uma regra de três simples: «a obra original está para o leitor da obra original, assim como a tradução para o leitor da obra traduzida» e acrescenta – «o tradutor assume o papel do autor, repetindo a mesma obra noutra língua». É uma boa maneira de ver o problema.
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Sou um leitor compulsivo e tenho sido, ao longo da minha vida profissional, tradutor compulso – isto é, numa certa fase da minha vida, compelido pela necessidade de ganhar a vida, e noutra compulsado pelas circunstâncias – as mais de as vezes por ser necessário executar o trabalho com urgência e não haver ninguém à mão capaz de o fazer dentro do prazo exigido. Como leitor sofro muito com as más traduções, com as trapaças, com a falta de brio profissional; como tradutor, sofro com a perpétua e justificada desconfiança do meu saber. Mesmo quando se trata de um vocábulo estrangeiro milhares de vezes por mim usado, vou sempre verificar se não haverá qualquer acepção menos vulgar que me tenha escapado. Sofro, sobretudo, quando, depois de editado o trabalho, descubro erros que deveria ter evitado.
Não vou aqui referir erros de tradução, pois isso obrigar-me-ia a falar de nomes, coisa que não quero. Depois, sei em que circunstâncias muitas vezes as traduções são feitas. Prazos exíguos, pagamentos parcos e ainda por cima incertos. Até há duas décadas atrás, as traduções eram geralmente pagas à página (30 linhas de 70 caracteres = 2100 caracteres). Hoje, com o trabalho feito em computador, usa-se mais como unidade de referência os conjuntos de 2000 caracteres. Mas, de uma forma geral, continua a ser um trabalho mal pago. Isto, quanto a mim, não desculpa que se façam as traduções que por aí aparecem. Já trabalhei por todos os preços desde o zero até ao bastante bem pago. O cuidado que ponho nos meus trabalhos é sempre o mesmo. Com esta afirmação, não pretendo ser modelo de coisa nenhuma, até porque conheço muita gente que procede exactamente como eu. O pior são os outros.
Estas reflexões sobre a tradução foram-me sugeridas por um livro que acabei de ler. Não vou dizer o título, pois isso poria em cheque o tradutor. Apenas um pormenor. Na obra, um romance, aparece repetidamente um sótão que se verifica pela descrição romanesca ficar no subsolo. Como o livro é traduzido de um original norte-americano, a confusão seria entre «attic», «loft» ou «garret» e «cave» (verifiquei, depois, compulsando o original, que a palavra usada foi «cave»). Embora não fosse exactamente o que se pretendia, a palavra portuguesa «cave» serviria razoavelmente, não se verificando o clássico problema dos «falsos amigos» – o ideal seria talvez «caverna».
O que se teria passado para que uma caverna subterrânea aparecesse transformada num sótão? Muito simples: a tradução não foi feita do inglês, como expressamente se indica na ficha técnica, mas sim do castelhano. Em castelhano, cave diz-se «sótano» e «sótano» – está-se mesmo a ver, não está? – só pode ser sótão! Temos, portanto, um tradutor que por ignorância ou preguiça substitui o original por uma tradução espanhola, mas que não sabe castelhano (o português da tradução é muito razoável, no entanto). Exemplos como este, de más traduções e de trapaças como esta são às centenas.
Por tudo o que fica dito e pelo muito que aqui não cabe dizer, se entende como é difícil traduzir. E como é difícil avaliar traduções, pois já tenho deparado com traduções globalmente mal feitas onde há problemas muito bem resolvidos. O contrário também acontece. Não entendo, por isso, como por vezes são atribuídos prémios de tradução, usando talvez critérios jornalísticos (falo de prémios atribuídos por jornalistas), mas sem a intervenção de especialistas, nomeadamente universitários. Como sabem eles que as traduções estão bem feitas? Mistérios.

(retirado do blogue 'Aventar')